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Willian (Corinthians) e Gabriel Aranda (Boca Juniors)
  1. Futebol

O crescente risco de se reduzir o futebol a estatísticas

A análise de desempenhos individuais e coletivos no futebol faz cada vez mais uso de estatísticas, e os riscos de tal escolha tendem a ser negligenciados.

[Artigo originalmente publicado em 23 de agosto de 2022.]

No último mês de agosto, um ano após retornar ao clube pelo qual foi revelado, Willian acertou a sua rescisão com o Corinthians.

Alvo de críticas devido aos baixos índices de participação direta em gols nesse período, o meia se defendeu com a seguinte frase:

''Futebol não é só baseado em números''.

Qualquer que seja a avaliação feita quanto ao desempenho recente de Willian em solo brasileiro, a observação acima merece uma reflexão mais profunda. 

Números individuais

Vamos começar abordando as estatísticas que levaram o agora ex-camisa 10 do Timão a proferir a frase citada na introdução deste texto.

Nos 45 jogos de sua segunda passagem pelo Parque São Jorge, Willian marcou um gol e deu seis assistências — números bem pouco expressivos para um meia. 

Não se trata de minimizar a importância de tais estatísticas, mas, como ele mesmo disse, há outros fatores a serem considerados: ''quebrar linha, arrancar com a bola, driblar, iniciar jogadas de gol''.

Com exceção de dribles, as qualidades mencionadas por Willian tendem a ser difíceis de quantificar.

De qualquer forma, o ponto é que mesmo uma análise pormenorizada de todos os números de um jogador nunca dará toda a dimensão do seu valor para uma equipe.

Assim como as análises de números coletivos nunca contarão a história completa de uma partida.

Números coletivos

Por vezes, recortes de comentários feitos por técnicos acabam dando margem para análises simplistas quanto ao desempenho de um time.

Há dois anos, o comandante da seleção brasileira, Tite, disse o seguinte após a estreia da Canarinho nas Eliminatórias de Catar 2022: ''para jogar bem, tem que finalizar dezesseis vezes''.

Tite falou isso num contexto em que citou a quantidade de finalizações em conjunto com outras duas estatísticas: finalizações na direção do gol e posse de bola.

Além do mais, o treinador do Brasil realçou que tais números são importantes também por questões defensivas (''não pode tomar susto toda hora'').

Em outras palavras, dezesseis finalizações não é um número mágico; é apenas um indício de que uma equipe que preza pela posse de bola provavelmente conseguiu implementar o seu modelo de jogo.

Mas, para os que nem mesmo se dão ao trabalho de assistir a uma partida, é mais conveniente acreditar que as estatísticas bastam para dizer se um time jogou bem ou mal.

E, embora essa mentalidade se verifique com mais clareza em pessoas mais jovens (daí a expressão ''Geração SofaScore''), estamos falando de uma tendência social cada vez mais disseminada.

A fé nos dados

Em 2015, o historiador israelense Yuval Harari lançou o livro Homo Deus (uma continuação do seu best-seller Sapiens, de quatro anos antes).

No último capítulo dessa obra, ''A religião dos dados'', Harari aborda o conceito de dataísmo, classificado por ele como uma ''tecnorreligião''.

Em suas palavras, o dataísmo é a crença de que ''o Universo consiste num fluxo de dados[,] e o valor de qualquer fenômeno ou entidade é determinado por sua contribuição ao processamento de dados''.

Como a capacidade humana de processar dados é bastante limitada se comparada à de algoritmos eletrônicos, 

''[s]e desenvolvermos um algoritmo que realize melhor a mesma função, as experiências humanas perderão seu valor [...]''.

Uma das consequências dessa fé absoluta nos números é o ser humano deixar cada vez mais de se dar ao trabalho de interpretar por si mesmo as suas experiências.

Em vez disso, faz mais sentido formular algoritmos — como o xG (expected goals), no caso do futebol — e torná-los cada vez mais sofisticados.

Acontece que há variáveis que mesmo os melhores algoritmos da atualidade ignoram.

Transcendência

Lembremos aqui do sucesso da Argentina que, em 2021, quebrou um jejum de 28 anos sem títulos ao conquistar a Copa América no Brasil.

Lionel Messi foi eleito o melhor jogador do torneio, e essa escolha pode ser facilmente embasada em números: foi ele um dos artilheiros, com quatro gols, e o líder em assistências, com cinco.

Mas mesmo essas estatísticas se tornam secundárias quando escutamos as seguintes palavras de seu companheiro de seleção Emiliano Martínez (eleito o melhor goleiro da competição) sobre Messi:

''vê-lo jogar lá de trás me gerava segurança e me fez ser uma versão melhor. [...] Oxalá tivesse jogado todas as partidas em uma liga na mesma equipe que ele; isso teria feito de mim um goleiro muito melhor''.

Essa citação resume o que Messi fez por Martínez e seus demais companheiros naquela Copa América: inspirou-os a dar tudo de si.

Até onde se sabe, é desse tipo de intangibilidade que nenhum algoritmo é capaz de dar conta.

Pelo menos por enquanto.

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